sexta-feira, 22 de junho de 2012

Um conto iraniano

No começo de junho nós fizemos nossa primeira grande viagem em família. No alto dos seus 15 meses, o Uri já tem passaporte, já andou de avião e já foi comer paella e visitar as priminhas na Espanha. 


Um dos meus maiores medos em viajar com uma criança tão pequena (mas que já não é um bebê que dorme o tempo todo e é facilmente distraído) era a viagem de avião, porque se ele resolvesse que não estava a fim de cooperar, não teríamos pra onde fugir sem os nossos paraquedas. Mas ele foi um príncipe em todos os vôos, colaborou, curtiu, brincou e principalmente dormiu muito.


Toda a nossa preparação e as nossas escolhas certas de horários de vôo ajudaram muito, é verdade. Uma das nossas idéias era deixar pra lá essa história de preferencial por termos um bebê de colo e entrarmos por último no vôo, assim teríamos menos tempo para entreter o pequeno entre as poltronas do avião, e mais tempo para cansar um recém bípede. 


E se na ida a gente chegou ao aeroporto aqui em Israel com 3 horas de antecedência, para fazer tudo com calma, passear no free shop, tomar um lanche e começar a curtir as férias, na volta, na tentativa de esticar a alegria por mais alguns minutos, fizemos check-in e passamos por todos os controles no último minuto, já na hora do embarque que, para nossa sorte, atrasou por uns 20 minutos. 


Tivemos um acidente com o danoninho q levávamos pro Uri e enquanto eu lavava a bolsinha termica e tudo mais que estava endanonizado, o Ariel foi cansar o pequeno. 


Depois de um tempo, meu filho, que tem a simpatia e a cara de pau do pai dele, foi avistado empurrando um carrinho de bebê pela área de embarque, ali, junto ao portão. Não era o carrinho dele, obviamente, era o da Miriam. Quando eu me aproximei, depois de limpar toda a sujeira, descobri que a Miriam era a nova amiguinha dele. 


A Miriam era uma bebê iraniana de pouco mais de um ano de idade. Pelo que o Ariel entendeu (porque homem não sabe pegar informações pra contar pra mulher depois), o pai dela havia morado em Mallorca e falava espanhol perfeitamente. Eles tinham saído do Irã e vindo para a Espanha para marcar a cirurgia cardíaca da Miriam (e claro que o Ariel não perguntou o que ela tinha). O pai viajava sozinho com a filha e mostrava ter um carinho enorme e muita paciência com ela. 


A palavra "cirurgia", acompanhada da outra "coração" tocaram a mãe aqui. Como assim um bebê tão pequenininho já tem um problema?  Como assim ela vai ter q passar por uma cirurgia?


Eles entraram no vôo antes da gente (o pai da Miriam, apesar de carinhoso, não foi astuto pra deixá-la cansar um pouco mais lá fora) e se sentaram no banco ao lado, mas numa fileira mais atrás. 


O Uri entrou no avião, tomou uma mamadeira e dormiu, acabando com todos os planos dos dois pais de colocarem os dois para brincar. O pai da Miriam pediu ajuda ao Ariel pra arrumar uma caminha pra ela com cobertores do avião. E a Miriam chorou. A Miriam resolveu que chorar era o q ela ia fazer naquele avião. O pai achou que era sono e que tinha que fazer a filha dormir. 


Eu não sei como a mãe da Miriam a fazia dormir, não sei se o pai sabia tão pouco, mas sei que a Miriam não estava achando legal ser sacudida pelo pai e chorava mais e mais. O Ariel olhava pro seu novo amigo, oferecendo ajuda, mas eu aconselhei a parar porque o cara poderia se ofender, achar que pensávamos que ele não sabia cuidar da filha. Falei pro Ariel que criança é assim mesmo, que poderia ser o Uri e que ainda bem que não era, ent'ao eu ia aproveitar e dormir. Até cochilei, mas acordei com o choro da Miriam.


Imaginei que o avião inteiro estava incomodado com os gritos, mas pensei muito mais no pai. Cansado, preocupado com a cirurgia da filha, frustrado por não conseguir acalmá-la, pensando por que diabos não mandou a mulher com a menina e ficou com o resto da família, e com vergonha dos outros passageiros, vergonha dos ssshhh e dos olhares. E eu pensava na Miriam, que talvez quisesse a mãe dela, que não estivesse muito acostumada com o jeito do pai, ou simplesmente não estava sendo compreendida que não queria dormir coisa nenhuma. 


Me segurei por mais um tempo, até que não me aguentei, pedi passagem pro Ariel e sai do assento. O cara sorriu envergonhado e eu perguntei se ele se incomodaria se eu levasse a Miriam para passear um pouco, pra ele descansar. 


Peguei a nenê, que estendeu os bracinhos pra mim e sorriu imediatamente. O pai respirou aliviado, junto com todo os passageiros, que finalmente não escutavam mais o choro daquela criança. E eu andei com ela por todo o corredor do avião, fui e voltei, e recebi olhares de apoio, de "ai que bom que você fez isso". 


Passeei com ela, voltei para a nossa poltrona e fiquei ali com ela no colo, brincando. O pai perguntando a todo momento se ela estava incomodando, e dizendo que se eu me cansasse, era só devolver. Mas ele falava isso e quando eu respondia que estava tudo bem, sorria, virava e dormia. 


E eu brinquei de mãe de menina. De menina iraniana, que na teoria, deveria vir do povo do "inimigo", da ameaça. Ela era linda, tinha os olhos pretos, enormes e brilhantes, o cabelo cacheado e estava muito bem vestida, tudo combinando, da roupinha ao prendedor de chupeta (certeza que a mãe deixou tudo separadinho pro pai).


Ela me olhava, me fazia carinho no rosto, brincava com a minha corrente, até tentava baixar a minha blusa, o que me fez pensar que talvez a mãe ainda a amamentasse, ou que tivesse parado há pouco. Ela brincou com os brinquedos do Uri (que dormia ainda) e leu os livrinhos dele. Em Hebraico, a menininha persa. 


imagem do Google
Eu olhava para aquela nenê e só conseguia desejar o bem para ela, que desse tudo certo na cirurgia e que ela crescesse saudável e feliz num país decente, com um governante que não desejasse acabar com o mundo, ou com o meu povo. Desejei, do fundo do meu coração, que um dia ela e o Uri pudessem ser amigos, que pudessem passar férias nas casas um do outro e que o fato de eu estar brincando e acalmando uma menina iraniana não me parecesse interessante, estranho ou engraçado nunca mais. 





O avião pousou em Instambul, nossa escala e como esse vôo tinha atrasado, teríamos que correr para não perder o próximo para Tel Aviv. Esperamos trazer o carrinho, colocamos o Uri nele e saímos com pressa. Só tivemos tempo de nos despedir da Miriam e do seu pai, mas não pudemos trocar email, nome no facebook, nem nada.


E eu, que queria ao menos saber sobre a saúde dela, terei que ficar somente com a imagem e as lembranças da pequena iraniana que me mostrou que tem horas que só a mãe salva, mesmo que ela não seja a mãe da gente. E mesmo que a mãe seja israelense e judia. 




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Gente, estou participando do concurso "O melhor post do mundo", da Limetree, com um texto que publiquei aqui no blog, Ode to Uri, mas que na verdade foi escrito no Grãozinho de Bico (meu outro blog) uns poucos dias antes dele nascer. 


Esse concurso irá escolher, dentre os 10 finalistas, o melhor post, que ganhará uma viagem a NY!! Para estar entre os 10 finalistas, preciso de muitos votos. Tenho estado em verdadeira campanha para conseguir votos entre a minha família, meus amigos e os amigos deles, tenho tipo muito apoio e muita ajuda, mas infelizmente tem muita gente que se acha mais esperta do que todo mundo e acha que o caminho mais fácil e desonesto pode levar mais longe, Espero que a coordenação do concurso faça alguma coisa, mas enquanto isso não acontece, conto com os votos de vocês!! Cada voto é muito importante e me ajuda muito!


Pra votar é super simples:

É só clicar no link abaixo, curtir a página do Limetree e depois clicar em "vote" no texto (clicar so em "curtir" nao conta como voto - vc vai ver se deu certo se o numero de votos mudar). È rapidinho mesmo, meninas!!
Beijos e muito obrigada pela atenção e ajuda de vocês!


http://bit.ly/L1kFPX






2 comentários:

  1. lindíssimo seu texto, me arrepiei!!

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  2. Lu que lindo!!! Sabe que uma das coisas que me fez começar a ler p seu blog, foi saber como vc vivia numa região com tantos conflitos religiosos e políticos!! Me suepriendi qt a tudo!! Tão bom seria se as pessoas fossem menos extremistas e respeitassem o outro assim.. Como vc fez... Apenas como ser humano, como uma cça, como uma mulher ou um homem!!!
    Conheci muito da sua religião e admiro muito.. Acho sua religião linda e gostaria até de saber ainda mais.. Me lembro da primeira sinagoga que visitei em recife.. E lá começou minha curiosidade com o povo judeu...
    Já que o que mais sabia era sibre seu massacre no Holocausto.. O que desde pequena achava inconcebível!!!
    Bjos mil

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