Mostrando postagens com marcador Hebraico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hebraico. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Quem cuida do seu filho em Israel?


Esse é outro post que fez parte de uma Blogagem Coletiva do Mães Internacionais (originalmente no Grãozinho de Bico) e resolvi transferir pra cá.

****

A licença maternidade paga em Israel é de míseras 14 semanas (3 meses e meio). Depois disso, se a mãe desejar, as empresas têm que aceitar que ela tire até os seis meses do bebê, mas ela não receberá mais pagamento por esse mês e meio. Após os 6 meses, fica a critério da empresa aceitar uma extensão ou não. Nem vou entrar no mérito do que é justo e o que não é, do quanto dói deixar o filho pequenininho e voltar para o trabalho e do quanto eu queria morar na Estônia, onde a licença maternidade pode chegar a 3 anos!!!

Então, chegada a hora maldita as mães têm algumas opções de cuidados pros bebês.

A comunidade russa (enorme no país), e muitos israelenses também, optam em deixar com a vovó. Na cultura russa isso é bem comum, minhas amigas do trabalho deixam os bebês com as babushkas e eu vejo um monte delas passeando com carrinhos por ai. Essa, pra mim, seria a opção ideal (tirando a de eu poder ficar em casa até o o primeiro aniversário dos meus filhos). Na minha opinião, até 1 ano de idade, o bebê não necessariamente precisa de contato com outros bebês, não precisa de muitos estímulos fora os que são dados pela mãe, se essa realmente passar um tempo de qualidade com o seu filho. Tipo aula de inglês, de música ou de sei lá o q, na minha opinião, é bobeira antes de 1 ano. Contato com outras crianças é legal, principalmente depois de uns 9, 10 meses, mas se a mãe tiver um círculo de amigas com filhos da mesma idade, se levar sempre no parquinho, se procurar atividades para bebês (no shopping na esquina de casa, tem encontros semanais e gratuitos para mães e bebês, com atividades que estimulam o desenvolvimento deles), a escolinha não é realmente fundamental.

Quem, como eu não tenha a safta (vovó, em Hebraico) por perto, mas ainda acha q o bebê deve receber um cuidado 1:1 nos primeiros meses, apela pra babá (ou metapelet). Aqui em Israel, a metapelet pode estar na sua casa ou na casa dela mesmo. Se for na sua casa, ela é, a priori, contratada pra cuidar do bebê, não da casa. Você pode combinar que ela cuide da roupinha dele e faça a comidinha dele enquanto ele dorme, mas não mais do que isso. Se vc quiser que ela faça qualquer outra coisa, tem que pagar a parte, o que é muito justo. O salário de uma metapelet varia, vai de 2 mil e poucos shekels (mil e poucos reais), a uns 5 mil, dependendo do número de crianças, da quantidade de horas trabalhadas por dia, e do que ela vai fazer na sua casa e pro bebê.

Dá também para deixar o bebê na casa da babá, se ela preferir e se você concordar (e ainda por cima achar estranho ter alguém enfiado na tua casa o dia todo). Essa é uma ótima alternativa também, desde que a babá escolhida seja uma pessoa de extrema confiança e que tenha indicações. Nas duas opções, vale combinar todos os detalhes, os horários, o que pode e o que não pode fazer com o bebê e em geral, principalmente se for na casa dela, porque a gente tende a se sentir menos à vontade e não fala desde o início, ai acontecem coisas que te desagradam, mas você acaba não falando nada. Por exemplo: Você combina com a babá o período de 9 às 16. Estando na casa dela, você até imagina que tudo bem ela fazer o almoço e comer enquanto o bebê dorme. Isso é normal, isso é aceitável. Porém, chegar na casa da babá e encontrar o teu filho, que já engatinha, preso no carrinho (sempre detestei carrinho dentro de casa, criança tem que ficar livre, aqui o carrinho fica do lado de fora, meu filho nunca ficou sentado no carrinho em casa), na cozinha com ela, enquanto ela limpa a casa com litros e litros de água sanitária. Isso não é OK!!!! Não é OK porque você não paga a babá pra limpar a casa dela quando poderia estar brincando, passeando ou cuidando do teu bebê e é menos OK ainda porque manter um bebê num ambiente fechado com cheiro de água sanitária é perigoso. Então, aprenda comigo: Combine tudo, escreva, converse, pergunte, teste. Não tome como certo que a babá vai pensar como você e querer o melhor pro teu filho. Talvez o melhor dela não seja tão bom assim. E fale tudo que te incomodar, desde sempre, pras reclamações não se acumularem e tudo ficar pior. E isso vale para babás israelenses, russas, brasileiras, argentinas, filipinas...

Os pais que não têm condições de ter uma metapelet, podem contar com uma outra opção: Algumas mães de bebês que podem ficar mais meses em casa mas que desejam aumentar a renda familiar, pegam mais um bebê pra cuidar junto com o seu. De novo, é uma ótima alternativa se você conhecer essa mãe, ou tiver muitas e excelentes indicações dela. E de novo, combine TUDO.

Há outras pessoas que resolvem cuidar de 3 a 4 bebês em suas casas. A isso se dá ao nome de mishpachton . Eu não sei dizer se há algum regulamento ou fiscalização para os mishpachtonim (plural de mishpachton), ou se quem quiser abre o seu e pronto. Já ouvi histórias horripilantes sobre eles, da cuidadora que espanca criança, de comida de pouca qualidade, de crianças jogadas em frente à TV o dia todo. Por outro lado, já ouvi falar de cuidadoras cuidadosas (há!) e carinhosas, lugares limpinhos e próprios pros pequenos, enfim, é a opção pra quem não quer ainda colocar o seu filho numa creche com muitos bebês.

As creches (ou ganim) aqui podem ser públicas ou privadas. Geralmente, as públicas, as gratuitas, começam aos 3 anos de idade da criança. Antes disso, há creches de entidades beneficentes que têm um bom desconto na mensalidade. Para isso, a mãe tem que provar q a renda familiar é mais baixa e o desconto é dado de acordo a isso. Esses ganim são muito concorridos não só por esse fator econômico, mas pela qualidade nos cuidados com as crianças (segundo contam). 

Nós pagamos pro Uri o equivalente a 1250 reais, pro período de 7 às 4 (se quiséssemos até às 5 seria 50 reais mais caro) de domingo à quinta e 7 às 12 às sextas feiras. Nesse preço estão incluídas 3 "refeições" - café da manhã (que pra gente seria mais um lanche da manhã, porque é "tarde", 9 e pouco, e ele toma café da manhã em casa), almoço e um lanchinho à tarde (não considero refeição porque ele sempre chega em casa morrendo de fome), algumas aulinhas extras por semana (yoga e esporte para crianças pequenas e musicalização) e só. Fraldas, lenços umedecidos, creme pra assadura, leite artificial (se for o caso) são mandados pelos pais.

Há ganim bons e ruins, como em todo lugar, eu acredito. Os espaços podem ser grandes, arejados e arrumados, mas também pequenos e bagunçados. Há ganim com camêras que filmam tudo e os pais podem ver os filhos pela internet, há ganim que mandam fotos pros pais das atividades dos pequenos com uma certa frequência, há ganim onde tudo é uma bagunça. Tem que saber procurar e acima de tudo, ter recomendações de gente conhecida.

Ainda pra essa faixa etária (até os 3 anos), há ganim religiosos, russos, bilingues (inglês e hebraico). Esses ganim têm uma certa fiscalização do governo, mas não são administrados por ele. A partir dos 3 anos, a criança vai pro gan trom-trom hová ("creche pré-pré obrigatória") e aí sim é o governo que manda e fiscaliza, há um planejamento a ser seguido, que é igual para todos e ele é Hebraico. Mesmo se a criança for para o gan onde só se falava russo até essa idade, ela terá que ir ao gan hová "nacional" quando for a hora. Esse gan é gratuito e funciona até às 13 ou 14 horas. Se os pais precisam que a criança fique até o final da tarde, pagam pelo tza'aron (falo dele aqui embaixo).

Aos 6 anos eles começam a escola, que é pública também (há escolas particulares, mas elas são as bilingues, as internacionais, enfim, as "especiais"). No ensino fundamental (até a 5a série de quando nós estudávamos - já me perdi com as mudanças na nomeclatura no Brasil ) as crianças estudam só na parte da manhã e um ou outro dia saem um pouco mais tarde.

Pras mães que trabalham e não têm onde deixar os filhos (maiores) na parte da tarde, há os tza'aronim, tanto nas escolas quanto fora delas. São lugares onde as crianças almoçam, passam a tarde, têm ajuda pra lição de casa, às vezes atividades como pintura, artesanato e brincadeiras dirigidas.

A minha opinião sobre o sistema, baseado no que vivemos até agora com o Uri (1 metapelet e 2 ganim particulares) ? Talvez por falta de sorte, talvez por exigência minha (confesso, sou chata), mas não estou satisfeita. com a metapelet, além de outros problemas que não têm a ver com ela (era longe demais), faltou comunicação no começo, faltou pontuar muitas coisas e eu acabei não falando de coisas que me incomodavam desde o começo, fui deixando passar e depois elas ficaram insustentáveis pra gente.

O primeiro gan que ele foi era longe demais (20 minutos pra ir, 20 pra voltar, mais os minutos que passávamos lá, quase 1 hora perdida de manhã e à tarde) e era ruim. As cuidadoras não paravam no emprego (forte indicativo de um mau local de trabalho). Eu tinha a impressão que meu filho ficava jogado no chão o dia todo, salvo quando comia ou dormia, e não era estimulado de maneira alguma. Eu não gostava das cuidadoras, não confiava. Enfim, não era bom. Ainda assim, demorou 6 meses pra eu me convencer de que o problema era o gan, não eu e a minha exigência.

Ai encontramos esse novo gan, na rua de baixo de casa, o que tranformou a nossa vida para melhor, temos muito mais qualidade de vida com o Uri, de manhã e à tarde (e até hoje eu e o marido nos perguntamos onde estávamos com a cabeça de colocar o nosso filho em dois lugares tão longes - a metapelet e o outro gan). Eu gosto muito de duas das 3 cuidadoras fixas, são mais velhas, são mães e se preocupam pra valer com o bem-estar das crianças. A terceira cuidadora é a dona do gan e responsável pela parte "pedagógica". Eu gosto dela, acho que ela faz um trabalho legal com as crianças, mas já a peguei gritando, o que eu não gosto. Fora que às vezes eu sinto que ela é um pouco falsa, fala as coisas que eu quero ouvir. Uma coisa que me incomoda bastante é às vezes chegar e a filha da dona (uma pirralha de 22 anos antipaticíssima e sem o menor appeal com as crianças) estar cuidando deles porque as outras cuidadoras já não estão. A comida é OK, mas o cardápio não varia muito e o pior, na minha opinião, é que oferecem doces pras crianças, pão com chocolate no lanche, Bamba e balas nas festinhas. Isso vai muito contra o que eu e o marido queremos e ensinamos ao Uri, mas recentemente, vendo meu filho deixar um bombom derreter na mão por falta de interesse e se acabar de gritar porque acabou o melão cortadinho no potinho dele, percebi que o nosso trabalho está feito, meu filho pode até comer um doce ou outro na creche (mesmo com toda a minha indignação com isso), mas só de não termos porcarias em casa - pelo menos não ao alcance dele - e ele vendo muitas coisas saudáveis por aqui, já adaptou o paladar. 



Além disso, eu percebo que o Uri aprende bastante coisa no gan, tanto no convívio social - guardar os brinquedos, aprender a dividir, a escutar comandos (como o de sentar e escutar) como músicas e palavras em Hebraico (coisa que não aprende em casa). Um dia, do nada, o vejo cantando musiquinhas em Hebraico, fazendo gestos, e percebo que ele tem sim um mundo "dele", longe dessa casa e da nossa influência.

De qualquer forma, pelo q eu ouço por aqui, apesar de diferente, o ensino em Israel é bom. Quer dizer, se compararmos às melhores escolas particulares do Brasil, claro que ele sai perdendo, mas sendo o ensino fundamental público, ele é bastante razoável. Quanto às creches, eu sinto sim falta de uma boa creche particular pro Uri, dessas ueq eu vejo nos blogs por ai. Aqui o negócio é diferente, não tem tanto capricho, mas como eu sei que me dedicaria à educação dele em casa de qualquer maneira, me forço a não ficar me lamuriando e não tentando comparar muito

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sukkot - A festa das cabanas

Dando continuidade às festas do mês judaico de Tishrei (iniciadas por Rosh Hashaná), essa semana comemoramos Sukkot. Sukkot é uma das três festas nas quais os hebreus faziam uma peregrinação para o Templo em Jerusalém (levando animais e cereais como forma de sacrifício)

Esse feriado dura sete dias (oito fora de Israel). Na verdade, o feriado mesmo (quando não se pode trabalhar, assim como o Shabbat, para os religiosos) acontece no primeiro e no último dia dessa semana. Os dias intermediários são chamados de Chol hamoed e aqui em Israel as escolas estão fechadas, alguns religiosos não trabalham e tiram férias, mas a maioria da população trabalha normalmente, como eu e meu marido. Há lojas e outros estabelecimentos comerciais que abrem somente por meio período durante essa semana.

A palavra hebraica sukkot é o plural de sukkah, que é uma estrutura murada coberta de skhakh (material de fábrica como crescimento excessivo de árvore frondoso ou folhas de palmeira). A sukkah simboliza a eminiscência do tipo de residências frágeis nas quais os judeus viveram durante os seus 40 anos da viagem no deserto depois do Êxodo da escravidão no Egito.

Durante toda a duração do feriado, os judeus religiosos fazem as suas refeições na sukkah e muitos dormem lá também. Muitos aproveitam as "férias" para fazer encontros com os amigos na sukkah, churrascos e festas. Restaurantes, shoppings, espaços públicos e algumas creches também disponibilizam sukkot para que  os observantes possam fazer suas refeições na sukka mesmo que fora de casa.


Mas a sukkah não é uma cabana qualquer, há uma série de requisitos para que ela seja considerada uma sukkah "válida". As paredes podem ser construídas de qualquer material (madeira, lona, desvio de alumínio, folhas) e elas podem ser independentes ou incluir os lados de um edifício ou pórtico. O telhado deve ser do material orgânico, conhecido como skhakh, como eu expliquei ai em cima. Também costuma-se decorar a sukkah com fitas, objetos de decoração pendentes, flores, desenhos (essa é a parte mais divertida para as crianças).

as 4 espécies - etrog, lulav,
hadas, aravah

Outro costume dos religiosos durante Sukkot é a benção sobre as Quatro Espécies - cidra, palma de tamareira, murta e salgueiro. Essas espécies representam a variedade de características na natureza e nos homens - cada árvore e fruta tem suas próprias qualidades, assim como as pessoas. 

No último dia de Sukkot, os religiosos rezam pedindo chuva no outono e inverno que estão por começar, tão necessária nesse país de clima desértico. 

(imagem do Google)

Aproveitando as temperaturas mais amenas e as férias das crianças, há festivais e atividades para as crianças e para as famílias em todo o país. Passeios, shows, atividades em shoppings e tudo mais para entreter os pequenos e deixar os pais mais pobres.

Para fazer uma ilustração real de como Israel fica, sai com o iphone a câmera em punho nos últimos dias e fotografei algumas sukkot que vi no caminho. Na verdade, apesar de no meu bairro morarem muitos judeus religiosos, achei que ia ver mais sukkot por ai. Jerusalém, por exemplo, parece uma favelinha nessa época, em todo e qualquer espaço livre há uma sukká!


Sukkah na frente de uma creche



Assim é a decoração de uma sukkah por dentro.
Esta está um pouco pobrinha porque a creche estava fechada durante
o final de semana, quando eu tirei a foto
As varandas-favelinhas




Esses já deixaram até as panelas pra próxima refeição - hehe
(tirei essa foto hoje cedinho, ela ficava ao lado da creche do
Uri)




sexta-feira, 22 de junho de 2012

Um conto iraniano

No começo de junho nós fizemos nossa primeira grande viagem em família. No alto dos seus 15 meses, o Uri já tem passaporte, já andou de avião e já foi comer paella e visitar as priminhas na Espanha. 


Um dos meus maiores medos em viajar com uma criança tão pequena (mas que já não é um bebê que dorme o tempo todo e é facilmente distraído) era a viagem de avião, porque se ele resolvesse que não estava a fim de cooperar, não teríamos pra onde fugir sem os nossos paraquedas. Mas ele foi um príncipe em todos os vôos, colaborou, curtiu, brincou e principalmente dormiu muito.


Toda a nossa preparação e as nossas escolhas certas de horários de vôo ajudaram muito, é verdade. Uma das nossas idéias era deixar pra lá essa história de preferencial por termos um bebê de colo e entrarmos por último no vôo, assim teríamos menos tempo para entreter o pequeno entre as poltronas do avião, e mais tempo para cansar um recém bípede. 


E se na ida a gente chegou ao aeroporto aqui em Israel com 3 horas de antecedência, para fazer tudo com calma, passear no free shop, tomar um lanche e começar a curtir as férias, na volta, na tentativa de esticar a alegria por mais alguns minutos, fizemos check-in e passamos por todos os controles no último minuto, já na hora do embarque que, para nossa sorte, atrasou por uns 20 minutos. 


Tivemos um acidente com o danoninho q levávamos pro Uri e enquanto eu lavava a bolsinha termica e tudo mais que estava endanonizado, o Ariel foi cansar o pequeno. 


Depois de um tempo, meu filho, que tem a simpatia e a cara de pau do pai dele, foi avistado empurrando um carrinho de bebê pela área de embarque, ali, junto ao portão. Não era o carrinho dele, obviamente, era o da Miriam. Quando eu me aproximei, depois de limpar toda a sujeira, descobri que a Miriam era a nova amiguinha dele. 


A Miriam era uma bebê iraniana de pouco mais de um ano de idade. Pelo que o Ariel entendeu (porque homem não sabe pegar informações pra contar pra mulher depois), o pai dela havia morado em Mallorca e falava espanhol perfeitamente. Eles tinham saído do Irã e vindo para a Espanha para marcar a cirurgia cardíaca da Miriam (e claro que o Ariel não perguntou o que ela tinha). O pai viajava sozinho com a filha e mostrava ter um carinho enorme e muita paciência com ela. 


A palavra "cirurgia", acompanhada da outra "coração" tocaram a mãe aqui. Como assim um bebê tão pequenininho já tem um problema?  Como assim ela vai ter q passar por uma cirurgia?


Eles entraram no vôo antes da gente (o pai da Miriam, apesar de carinhoso, não foi astuto pra deixá-la cansar um pouco mais lá fora) e se sentaram no banco ao lado, mas numa fileira mais atrás. 


O Uri entrou no avião, tomou uma mamadeira e dormiu, acabando com todos os planos dos dois pais de colocarem os dois para brincar. O pai da Miriam pediu ajuda ao Ariel pra arrumar uma caminha pra ela com cobertores do avião. E a Miriam chorou. A Miriam resolveu que chorar era o q ela ia fazer naquele avião. O pai achou que era sono e que tinha que fazer a filha dormir. 


Eu não sei como a mãe da Miriam a fazia dormir, não sei se o pai sabia tão pouco, mas sei que a Miriam não estava achando legal ser sacudida pelo pai e chorava mais e mais. O Ariel olhava pro seu novo amigo, oferecendo ajuda, mas eu aconselhei a parar porque o cara poderia se ofender, achar que pensávamos que ele não sabia cuidar da filha. Falei pro Ariel que criança é assim mesmo, que poderia ser o Uri e que ainda bem que não era, ent'ao eu ia aproveitar e dormir. Até cochilei, mas acordei com o choro da Miriam.


Imaginei que o avião inteiro estava incomodado com os gritos, mas pensei muito mais no pai. Cansado, preocupado com a cirurgia da filha, frustrado por não conseguir acalmá-la, pensando por que diabos não mandou a mulher com a menina e ficou com o resto da família, e com vergonha dos outros passageiros, vergonha dos ssshhh e dos olhares. E eu pensava na Miriam, que talvez quisesse a mãe dela, que não estivesse muito acostumada com o jeito do pai, ou simplesmente não estava sendo compreendida que não queria dormir coisa nenhuma. 


Me segurei por mais um tempo, até que não me aguentei, pedi passagem pro Ariel e sai do assento. O cara sorriu envergonhado e eu perguntei se ele se incomodaria se eu levasse a Miriam para passear um pouco, pra ele descansar. 


Peguei a nenê, que estendeu os bracinhos pra mim e sorriu imediatamente. O pai respirou aliviado, junto com todo os passageiros, que finalmente não escutavam mais o choro daquela criança. E eu andei com ela por todo o corredor do avião, fui e voltei, e recebi olhares de apoio, de "ai que bom que você fez isso". 


Passeei com ela, voltei para a nossa poltrona e fiquei ali com ela no colo, brincando. O pai perguntando a todo momento se ela estava incomodando, e dizendo que se eu me cansasse, era só devolver. Mas ele falava isso e quando eu respondia que estava tudo bem, sorria, virava e dormia. 


E eu brinquei de mãe de menina. De menina iraniana, que na teoria, deveria vir do povo do "inimigo", da ameaça. Ela era linda, tinha os olhos pretos, enormes e brilhantes, o cabelo cacheado e estava muito bem vestida, tudo combinando, da roupinha ao prendedor de chupeta (certeza que a mãe deixou tudo separadinho pro pai).


Ela me olhava, me fazia carinho no rosto, brincava com a minha corrente, até tentava baixar a minha blusa, o que me fez pensar que talvez a mãe ainda a amamentasse, ou que tivesse parado há pouco. Ela brincou com os brinquedos do Uri (que dormia ainda) e leu os livrinhos dele. Em Hebraico, a menininha persa. 


imagem do Google
Eu olhava para aquela nenê e só conseguia desejar o bem para ela, que desse tudo certo na cirurgia e que ela crescesse saudável e feliz num país decente, com um governante que não desejasse acabar com o mundo, ou com o meu povo. Desejei, do fundo do meu coração, que um dia ela e o Uri pudessem ser amigos, que pudessem passar férias nas casas um do outro e que o fato de eu estar brincando e acalmando uma menina iraniana não me parecesse interessante, estranho ou engraçado nunca mais. 





O avião pousou em Instambul, nossa escala e como esse vôo tinha atrasado, teríamos que correr para não perder o próximo para Tel Aviv. Esperamos trazer o carrinho, colocamos o Uri nele e saímos com pressa. Só tivemos tempo de nos despedir da Miriam e do seu pai, mas não pudemos trocar email, nome no facebook, nem nada.


E eu, que queria ao menos saber sobre a saúde dela, terei que ficar somente com a imagem e as lembranças da pequena iraniana que me mostrou que tem horas que só a mãe salva, mesmo que ela não seja a mãe da gente. E mesmo que a mãe seja israelense e judia. 




******************************




Gente, estou participando do concurso "O melhor post do mundo", da Limetree, com um texto que publiquei aqui no blog, Ode to Uri, mas que na verdade foi escrito no Grãozinho de Bico (meu outro blog) uns poucos dias antes dele nascer. 


Esse concurso irá escolher, dentre os 10 finalistas, o melhor post, que ganhará uma viagem a NY!! Para estar entre os 10 finalistas, preciso de muitos votos. Tenho estado em verdadeira campanha para conseguir votos entre a minha família, meus amigos e os amigos deles, tenho tipo muito apoio e muita ajuda, mas infelizmente tem muita gente que se acha mais esperta do que todo mundo e acha que o caminho mais fácil e desonesto pode levar mais longe, Espero que a coordenação do concurso faça alguma coisa, mas enquanto isso não acontece, conto com os votos de vocês!! Cada voto é muito importante e me ajuda muito!


Pra votar é super simples:

É só clicar no link abaixo, curtir a página do Limetree e depois clicar em "vote" no texto (clicar so em "curtir" nao conta como voto - vc vai ver se deu certo se o numero de votos mudar). È rapidinho mesmo, meninas!!
Beijos e muito obrigada pela atenção e ajuda de vocês!


http://bit.ly/L1kFPX






terça-feira, 13 de março de 2012

Mamash...

Mamash é a minha palavra favorita em Hebraico. Eu gosto do som (mamásh) e gosto do significativo. 

Mamash quer dizer "de verdade", "realmente". Você pode falar "Ele é mamash bom nisso". "Isso tá mamash delicioso". 

Mas o uso mais legal seria o equivalente ao cínico "ah tá, tá bom" do Português Brasileiro. Neguinho faz um comentário infeliz, uma sugestão q você sabe q não vai dar certo, um pedido q você não vai aceitar e você não precisa falar mais nada, só solta um "mamash". Adoro.

"Nossa, lugar legal esse, né?" 
(você, achando um saco): "Mamash". 

Não entenderam? Com o próximo exemplo, vocês não terão mais dúvidas: 

"Amor, o q você acha se convidarmos minha mãe pra passar o fim de semana aqui?"
"Mamash". 

Entenderam, né?