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segunda-feira, 4 de março de 2013

"Quem conhece a gaita já sabe quem está chegando..."

Publiquei esse texto semana passada no Mães Internacionais, mas essa história é tão especial na nossa vida que vale a pena registrar por aqui também!


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O Uri, meu filho que acaba de completar 2 anos, já tem uma grande paixão: o Júlio, personagem principal do Cocoricó, programa exibido pela TV Cultura.

Tamanha paixão tem um culpado: a mãe. Eu sempre gostei do programa, acho que é de uma qualidade incrível, tem humor sem ser bobo, ensina (muito) sem ser chato, não “emburrece” nem infantiliza as crianças. Assim, a mãe preocupada com o Português do pequeno israelense (e com a qualidade do que ele assiste), sempre soube que iria apresentar a turma do Paiol pra ele.

Quando ele fez um aninho, ganhou uns DVDs do Cocoricó de uma amiga brasileira aqui em Israel, cujos filhos nunca deram atenção a eles. E foi amor à primeira vista. Tão pequeno, o Uri olhava fascinado pra TV, dançava com a música de abertura e chorava quando colocávamos qualquer outro DVD, pra minha alegria e a do meu marido, que se rendeu aos encantos da turminha também.

O Júlio virou Lúlio (e continua sendo até hoje) e foi o primeiro nome que o Uri aprendeu na vida. Não foi o do pai, o da mãe ou de algum amigo da creche, foi o do Lúlio.

E aí que quase um ano depois, viajamos, eu e ele, pro Brasil. Desde que marquei a passagem, comecei a procurar na internet o calendário de shows do Cocoricó, pois queria muito levar o Uri pra conhecer os ídolos ao vivo, eu sabia que ele adoraria e me emocionava só de pensar na carinha dele quando anunciassem “Quem conhece a gaita já sabe quem tá chegando...”

Não achando nenhuma programação de shows, e com a data da viagem chegando, resolvi ser cara de pau e escrever pra TV Cultura. Perguntei se eles poderiam me informar quando haveria show em São Paulo ou na região de Campinas e que, no caso de não haver mais shows, perguntei se poderia ir com o Uri conhecer os estúdios do paiol (mãe, essa cara de pau!). Algumas horas depois, recebi um email muito atencioso de um funcionário, o F.(vamos manter a privacidade dele, né?), dizendo que os shows foram realmente cancelados (o contrato acabou e não foi renovado) e que ele averiguaria a possibilidade de visitarmos as gravações do programa.

Viajamos pro Brasil e com a correria toda de se viajar com um bebê sozinha por tantas horas, acabei esquecendo do Lúlio, do Cocoricó, da TV Cultura e de várias outras coisas. Mas qual não foi minha surpresa ao abrir meus emails, já em Campinas, e ver uma mensagem do F. dizendo que poderíamos sim visitar o estúdio!

O próximo passo foi descobrir como chegar lá, tanto o endereço, como o meio de transporte, pois iríamos pra São Paulo na semana seguinte, mas sem carro – e cá pra nós, São Paulo não é uma cidade muito fácil de se circular, ainda mais com bebê e sem carro.

Mas como eu tenho as melhores amigas do mundo, um esquema tático foi armado e conseguimos! Estávamos hospedados na casa de uma amiga, na zona sul da cidade. Outra amiga querida, a Fernanda, veio nos buscar e nos levou pra um shopping do outro lado da cidade, que ficava bem perto da Água Branca, onde fica a TV Cultura. Como a Fernanda tinha que trabalhar à tarde, outra amiga, a Karina, veio nos buscar nesse shopping e nos acompanhou até o paiol (e foi a melhor compania que poderiamos ter escolhido pra isso).

Como nada poderia ser tão simples assim, quando saímos do shopping, pra passar a cadeirinha de bebê do carro de uma pro da outra, descobrimos que não tínhamos anotado em qual estacionamento a Fernanda tinha deixado o dela! Sim, foi um erro primário, que nos resultou em 40 minutos de busca do carro perdido, e um pouco de aflição, pois a gravação já estaria começando, mas não perdemos o bom humor.

Outra aventura foi encontrar a TV Cultura! O GPS da Karina se perdia, andava em curvas, errava tudo. Achei um mapa da região no meu celular e conseguimos! Chegamos à Cultura às 3:30, as gravações terminariam em meia hora. Ainda tivemos que esperar a liberação do estacionamento, esperamos o F. nos encontrar e lá fomos nós!

Fomos orientadas a não tirar fotos dos bichos “mortos” (sem o manipulador) e a manter o silêncio, afinal, eles estavam gravando. Munidas de chupeta, biscoito polvilho e muita reza pra manter o Uri quietinho e não atrapalhar, sentamos atrás de um monitor. Ele até que ficou em silêncio durante a gravação da primeira cena, sem entender muito o que acontecia, já que os personagens estavam gravando numa parte que a gente não podia ver do estúdio e ele estava assistindo na “televisão”, como em casa. Mas era pedir demais que um menino tão pequeno, perto dos seus ídolos, não ficasse emocionado e não começasse a demonstrar isso. Na gravação da segunda cena ele se agitou, falou, apontou... Resolvemos esperar lá fora então.

Esperamos pouco, uns 10 minutos apenas, tempo suficiente pra conversar um pouco com o F., agradecer umas 800 vezes pela atenção e ainda, de quebra, ganhar um pacote cheinho de presentes do Cocoricó – um DVD, um jogo, um livro pra colorir, adesivos.

Logo nos chamaram de volta ao estúdio e o Uri foi recebido pelo seu amigão – O Lúlio! A emoção era tanta que ele nem reparou no Fernando Gomes, o manipulador do boneco. Ele olhava encantado, extasiado, apaixonado. Confesso que, antes de chegar, tive um pouco de medo da reação dele ao ver as pessoas manipulando os bonecos, não queria estragar a fantasia dele, mas a verdade é que ele estava tão encantado que realmente não percebeu.

Fomos recebidos com muito carinho, principalmente o Uri. Fizeram questão de conversar com ele, tirar fotos no cenário, receber e dar beijos. Na saída, a mãe aqui ainda pediu um autógrafo pro Lúlio, pra guardar pra posteridade.

Se eu já gostava do Cocoricó, hoje eu sou fã fervorosa. Aliás, não só dele, mas dos manipuladores e dos funcionários da TV Cultura. Fomos recebidos, desde o primeiro email enviado, até o porteiro dos estúdios, com uma atenção e simpatia incomparáveis. A minha fiel escudeira Karina e eu ficamos impressionadas com tanto carinho! Se nos tivessem deixado apenas conhecer o estúdio vazio, se tivessem somente tirado fotos com a gente, já teria bastado. Mas fizeram muito mais do que isso. Realizaram, com muita ternura, o sonho que um menininho nem sabia que tinha! E deixaram uma mãe extasiada... Com a sensação de que ela tem sim super poderes e que sempre vai fazer o impossível pra ver esse sorriso no rosto do filho...





E aqui vão dois videos curtinhos e cortados, mas a emoção e a surpresa eram tamanhas que ninguém raciocinava direito:





quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Quem cuida do seu filho em Israel?


Esse é outro post que fez parte de uma Blogagem Coletiva do Mães Internacionais (originalmente no Grãozinho de Bico) e resolvi transferir pra cá.

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A licença maternidade paga em Israel é de míseras 14 semanas (3 meses e meio). Depois disso, se a mãe desejar, as empresas têm que aceitar que ela tire até os seis meses do bebê, mas ela não receberá mais pagamento por esse mês e meio. Após os 6 meses, fica a critério da empresa aceitar uma extensão ou não. Nem vou entrar no mérito do que é justo e o que não é, do quanto dói deixar o filho pequenininho e voltar para o trabalho e do quanto eu queria morar na Estônia, onde a licença maternidade pode chegar a 3 anos!!!

Então, chegada a hora maldita as mães têm algumas opções de cuidados pros bebês.

A comunidade russa (enorme no país), e muitos israelenses também, optam em deixar com a vovó. Na cultura russa isso é bem comum, minhas amigas do trabalho deixam os bebês com as babushkas e eu vejo um monte delas passeando com carrinhos por ai. Essa, pra mim, seria a opção ideal (tirando a de eu poder ficar em casa até o o primeiro aniversário dos meus filhos). Na minha opinião, até 1 ano de idade, o bebê não necessariamente precisa de contato com outros bebês, não precisa de muitos estímulos fora os que são dados pela mãe, se essa realmente passar um tempo de qualidade com o seu filho. Tipo aula de inglês, de música ou de sei lá o q, na minha opinião, é bobeira antes de 1 ano. Contato com outras crianças é legal, principalmente depois de uns 9, 10 meses, mas se a mãe tiver um círculo de amigas com filhos da mesma idade, se levar sempre no parquinho, se procurar atividades para bebês (no shopping na esquina de casa, tem encontros semanais e gratuitos para mães e bebês, com atividades que estimulam o desenvolvimento deles), a escolinha não é realmente fundamental.

Quem, como eu não tenha a safta (vovó, em Hebraico) por perto, mas ainda acha q o bebê deve receber um cuidado 1:1 nos primeiros meses, apela pra babá (ou metapelet). Aqui em Israel, a metapelet pode estar na sua casa ou na casa dela mesmo. Se for na sua casa, ela é, a priori, contratada pra cuidar do bebê, não da casa. Você pode combinar que ela cuide da roupinha dele e faça a comidinha dele enquanto ele dorme, mas não mais do que isso. Se vc quiser que ela faça qualquer outra coisa, tem que pagar a parte, o que é muito justo. O salário de uma metapelet varia, vai de 2 mil e poucos shekels (mil e poucos reais), a uns 5 mil, dependendo do número de crianças, da quantidade de horas trabalhadas por dia, e do que ela vai fazer na sua casa e pro bebê.

Dá também para deixar o bebê na casa da babá, se ela preferir e se você concordar (e ainda por cima achar estranho ter alguém enfiado na tua casa o dia todo). Essa é uma ótima alternativa também, desde que a babá escolhida seja uma pessoa de extrema confiança e que tenha indicações. Nas duas opções, vale combinar todos os detalhes, os horários, o que pode e o que não pode fazer com o bebê e em geral, principalmente se for na casa dela, porque a gente tende a se sentir menos à vontade e não fala desde o início, ai acontecem coisas que te desagradam, mas você acaba não falando nada. Por exemplo: Você combina com a babá o período de 9 às 16. Estando na casa dela, você até imagina que tudo bem ela fazer o almoço e comer enquanto o bebê dorme. Isso é normal, isso é aceitável. Porém, chegar na casa da babá e encontrar o teu filho, que já engatinha, preso no carrinho (sempre detestei carrinho dentro de casa, criança tem que ficar livre, aqui o carrinho fica do lado de fora, meu filho nunca ficou sentado no carrinho em casa), na cozinha com ela, enquanto ela limpa a casa com litros e litros de água sanitária. Isso não é OK!!!! Não é OK porque você não paga a babá pra limpar a casa dela quando poderia estar brincando, passeando ou cuidando do teu bebê e é menos OK ainda porque manter um bebê num ambiente fechado com cheiro de água sanitária é perigoso. Então, aprenda comigo: Combine tudo, escreva, converse, pergunte, teste. Não tome como certo que a babá vai pensar como você e querer o melhor pro teu filho. Talvez o melhor dela não seja tão bom assim. E fale tudo que te incomodar, desde sempre, pras reclamações não se acumularem e tudo ficar pior. E isso vale para babás israelenses, russas, brasileiras, argentinas, filipinas...

Os pais que não têm condições de ter uma metapelet, podem contar com uma outra opção: Algumas mães de bebês que podem ficar mais meses em casa mas que desejam aumentar a renda familiar, pegam mais um bebê pra cuidar junto com o seu. De novo, é uma ótima alternativa se você conhecer essa mãe, ou tiver muitas e excelentes indicações dela. E de novo, combine TUDO.

Há outras pessoas que resolvem cuidar de 3 a 4 bebês em suas casas. A isso se dá ao nome de mishpachton . Eu não sei dizer se há algum regulamento ou fiscalização para os mishpachtonim (plural de mishpachton), ou se quem quiser abre o seu e pronto. Já ouvi histórias horripilantes sobre eles, da cuidadora que espanca criança, de comida de pouca qualidade, de crianças jogadas em frente à TV o dia todo. Por outro lado, já ouvi falar de cuidadoras cuidadosas (há!) e carinhosas, lugares limpinhos e próprios pros pequenos, enfim, é a opção pra quem não quer ainda colocar o seu filho numa creche com muitos bebês.

As creches (ou ganim) aqui podem ser públicas ou privadas. Geralmente, as públicas, as gratuitas, começam aos 3 anos de idade da criança. Antes disso, há creches de entidades beneficentes que têm um bom desconto na mensalidade. Para isso, a mãe tem que provar q a renda familiar é mais baixa e o desconto é dado de acordo a isso. Esses ganim são muito concorridos não só por esse fator econômico, mas pela qualidade nos cuidados com as crianças (segundo contam). 

Nós pagamos pro Uri o equivalente a 1250 reais, pro período de 7 às 4 (se quiséssemos até às 5 seria 50 reais mais caro) de domingo à quinta e 7 às 12 às sextas feiras. Nesse preço estão incluídas 3 "refeições" - café da manhã (que pra gente seria mais um lanche da manhã, porque é "tarde", 9 e pouco, e ele toma café da manhã em casa), almoço e um lanchinho à tarde (não considero refeição porque ele sempre chega em casa morrendo de fome), algumas aulinhas extras por semana (yoga e esporte para crianças pequenas e musicalização) e só. Fraldas, lenços umedecidos, creme pra assadura, leite artificial (se for o caso) são mandados pelos pais.

Há ganim bons e ruins, como em todo lugar, eu acredito. Os espaços podem ser grandes, arejados e arrumados, mas também pequenos e bagunçados. Há ganim com camêras que filmam tudo e os pais podem ver os filhos pela internet, há ganim que mandam fotos pros pais das atividades dos pequenos com uma certa frequência, há ganim onde tudo é uma bagunça. Tem que saber procurar e acima de tudo, ter recomendações de gente conhecida.

Ainda pra essa faixa etária (até os 3 anos), há ganim religiosos, russos, bilingues (inglês e hebraico). Esses ganim têm uma certa fiscalização do governo, mas não são administrados por ele. A partir dos 3 anos, a criança vai pro gan trom-trom hová ("creche pré-pré obrigatória") e aí sim é o governo que manda e fiscaliza, há um planejamento a ser seguido, que é igual para todos e ele é Hebraico. Mesmo se a criança for para o gan onde só se falava russo até essa idade, ela terá que ir ao gan hová "nacional" quando for a hora. Esse gan é gratuito e funciona até às 13 ou 14 horas. Se os pais precisam que a criança fique até o final da tarde, pagam pelo tza'aron (falo dele aqui embaixo).

Aos 6 anos eles começam a escola, que é pública também (há escolas particulares, mas elas são as bilingues, as internacionais, enfim, as "especiais"). No ensino fundamental (até a 5a série de quando nós estudávamos - já me perdi com as mudanças na nomeclatura no Brasil ) as crianças estudam só na parte da manhã e um ou outro dia saem um pouco mais tarde.

Pras mães que trabalham e não têm onde deixar os filhos (maiores) na parte da tarde, há os tza'aronim, tanto nas escolas quanto fora delas. São lugares onde as crianças almoçam, passam a tarde, têm ajuda pra lição de casa, às vezes atividades como pintura, artesanato e brincadeiras dirigidas.

A minha opinião sobre o sistema, baseado no que vivemos até agora com o Uri (1 metapelet e 2 ganim particulares) ? Talvez por falta de sorte, talvez por exigência minha (confesso, sou chata), mas não estou satisfeita. com a metapelet, além de outros problemas que não têm a ver com ela (era longe demais), faltou comunicação no começo, faltou pontuar muitas coisas e eu acabei não falando de coisas que me incomodavam desde o começo, fui deixando passar e depois elas ficaram insustentáveis pra gente.

O primeiro gan que ele foi era longe demais (20 minutos pra ir, 20 pra voltar, mais os minutos que passávamos lá, quase 1 hora perdida de manhã e à tarde) e era ruim. As cuidadoras não paravam no emprego (forte indicativo de um mau local de trabalho). Eu tinha a impressão que meu filho ficava jogado no chão o dia todo, salvo quando comia ou dormia, e não era estimulado de maneira alguma. Eu não gostava das cuidadoras, não confiava. Enfim, não era bom. Ainda assim, demorou 6 meses pra eu me convencer de que o problema era o gan, não eu e a minha exigência.

Ai encontramos esse novo gan, na rua de baixo de casa, o que tranformou a nossa vida para melhor, temos muito mais qualidade de vida com o Uri, de manhã e à tarde (e até hoje eu e o marido nos perguntamos onde estávamos com a cabeça de colocar o nosso filho em dois lugares tão longes - a metapelet e o outro gan). Eu gosto muito de duas das 3 cuidadoras fixas, são mais velhas, são mães e se preocupam pra valer com o bem-estar das crianças. A terceira cuidadora é a dona do gan e responsável pela parte "pedagógica". Eu gosto dela, acho que ela faz um trabalho legal com as crianças, mas já a peguei gritando, o que eu não gosto. Fora que às vezes eu sinto que ela é um pouco falsa, fala as coisas que eu quero ouvir. Uma coisa que me incomoda bastante é às vezes chegar e a filha da dona (uma pirralha de 22 anos antipaticíssima e sem o menor appeal com as crianças) estar cuidando deles porque as outras cuidadoras já não estão. A comida é OK, mas o cardápio não varia muito e o pior, na minha opinião, é que oferecem doces pras crianças, pão com chocolate no lanche, Bamba e balas nas festinhas. Isso vai muito contra o que eu e o marido queremos e ensinamos ao Uri, mas recentemente, vendo meu filho deixar um bombom derreter na mão por falta de interesse e se acabar de gritar porque acabou o melão cortadinho no potinho dele, percebi que o nosso trabalho está feito, meu filho pode até comer um doce ou outro na creche (mesmo com toda a minha indignação com isso), mas só de não termos porcarias em casa - pelo menos não ao alcance dele - e ele vendo muitas coisas saudáveis por aqui, já adaptou o paladar. 



Além disso, eu percebo que o Uri aprende bastante coisa no gan, tanto no convívio social - guardar os brinquedos, aprender a dividir, a escutar comandos (como o de sentar e escutar) como músicas e palavras em Hebraico (coisa que não aprende em casa). Um dia, do nada, o vejo cantando musiquinhas em Hebraico, fazendo gestos, e percebo que ele tem sim um mundo "dele", longe dessa casa e da nossa influência.

De qualquer forma, pelo q eu ouço por aqui, apesar de diferente, o ensino em Israel é bom. Quer dizer, se compararmos às melhores escolas particulares do Brasil, claro que ele sai perdendo, mas sendo o ensino fundamental público, ele é bastante razoável. Quanto às creches, eu sinto sim falta de uma boa creche particular pro Uri, dessas ueq eu vejo nos blogs por ai. Aqui o negócio é diferente, não tem tanto capricho, mas como eu sei que me dedicaria à educação dele em casa de qualquer maneira, me forço a não ficar me lamuriando e não tentando comparar muito

quarta-feira, 28 de março de 2012

Bilinguismo em Israel

Israel é um país jovem, muito jovem, que foi declarado há somente 64 anos e foi populado por judeus que chegaram de todo o mundo (países Europeus como Russia, Romênia e Polônia, países orientais como Paquistão, Índia e até Yemen), além dos árabes que aqui já estavam. O israelense natural, aquele que nasceu aqui (também chamado de sabra*) é super recente, os primeiros devem ser da geração de nossos pais.


Mais recentemente, coisa de uns 20 e poucos anos pra cá, muitas ondas imigratórias, organizadas ou não, chegaram da Russia, Etiópia, França, América Latina, Estados Unidos. Foram grupos enormes (no caso da Rússia e da Etiópia) ou menores que chegaram em busca de melhores condições do que em seus países de origem ou que vieram simplesmente por amor à Terra de Israel, por sionismo.


Sendo assim, pouquíssimas são as famílias que têm integrantes 100% sabras. Pode ser um avô que veio do Irã, uma tia polonesa ou a namorada do primo que é russa. Há grupos que se integram mais, como no caso dos franceses, que mesmo com um sotacão forte, se esforçam em falar Hebraico e há outros, como os russos, que são tantos, e que geralmente chegam com a família toda, e que continuam vivendo como na Rússia, os mais velhor podem viver aqui tranquilamente sem falar uma palavra de Hebraico, tamanha a facilidade em encontrar falantes do seu idioma, canais de TV, supermercados, jornais, jardins de infância, tudo em Russo. Muitos anglo falantes vivem a mesma situação, principalmente os que estão em Jerusalém e Raanana, cidades conhecidas por abrigar imigrantes americanos, sul africanos, ingleses. Já peguei um ônibus em Raanana e não ouvi uma palavra em Hebraico por minutos, só inglês.


Do lado de Raanana fica Kfar Saba, cidade que está lotada de latinos. É andar 5 minutos na rua e escutar algum argentino falando. Aqui em Netanya, onde eu moro, há muitos russos e franceses, que adoram estar perto do mar e se não imigraram de vez pra cá, mantêm um apartamento aqui e outro em Paris. Tem também os argelinos e marroquinos, que se passam por franceses também.


Enfim, em qualquer cidade, em qualquer lugar desse país, dá pra se escutar um montão de línguas pelas ruas. Não só escutar, mas ver cartazes, letreiros de lojas, jornaizinhos e etc. Os serviços, publicos ou privados, mantém atendentes e gravações telefònicas em Hebraico, Árabe, Russo, Inglês (e Francês muitas vezes, pelo menos aqui em Netanya).


Eu acho isso muito legal. É uma bagunça cultural, é uma mega identidade do país que gera conflitos entre a população às vezes, mas é muito bom viver onde todo mundo é diferente, onde todo mundo está meio inserido no país e meio se esforçando muito para manter os seus costumes, a sua cultura e a sua língua.


Exatamente como nessa casa.


Meu marido é uruguaio, do Chuí, na divisa com o Brasil. Cresceu assistindo TV Colosso e desde q nos conhecemos, nosso idioma é Português. Ele fala bem, tem bastante sotaque (troca o som de "j" pelo "x", o de "s" por "z" e vice versa), mas tirando algumas nuances (e palavras engraçadissimas q ele inventa), não temos dificuldade nenhuma em nos comunicarmos. Nós dois falamos muito bem Hebraico também, assistimos TV israelense, temos amigos e amigas daqui, escrevemos, lemos (mas falamos melhor, fato), mas o idioma da casa é Português.


Então a questão do idioma que falaríamos com nossos filhos nunca foi uma questão em si. Eu falo Português, o Ariel fala com ele em Espanhol e na rua e na creche ele escuta Hebraico.


Eu faço questão absoluta de que ele fale Português bem, que quando chegue a idade leia livrinhos e quem sabe até escreva na língua da mãe dele. Sou linguista, estudei sobre bilinguismo e sobre aquisição de linguagem e uma ou outra palavra em Português no meio de uma frase em Hebraico não são suficientes pra mim. Eu acho q ensinar essas duas línguas pra ele de uma forma natural é um presente de valor inestimável pro nosso filho. Não somente ele poderá se comunicar com a família e os amigos de longe, mas também terá acesso a outras culturas, músicas, livros... Fora que já é comprovado que pessoas bilingues desenvolvem partes do cérebro que outras não têm a oportunidade de desenvolver (veja esse artigo aqui, em Inglês). 


Então desde sempre, eu falei somente Português com o Uri e por enquanto tem sido tudo muito tranquilo, mesmo porque ele não fala efetivamente nenhum idioma ainda, então não passamos pela fase em que ele se negará a falar qualquer língua que não seja a que os amigos da escola falam, ele não me responde em Hebraico ainda e eu não tenho que insistir pra que ele fale Português.


Baseada em tudo o que eu li e estudei, eu acho que o método OPOL (one parent one language) vai diminuir as chances de conflito e de confusão na cabecinha dele. Ele está crescendo sabendo que com a mãe ele usa um código, com o pai outro e "na rua" outro. Claro que ele já me ouviu falando Hebraico com outras pessoas na frente dele, mas com ele, o negócio é em Português. 


Eu posso estar rodeada de israelenses, mas eu me dirijo ao meu filho na minha língua e apesar de no começo eu ter achado isso estranho e ter me sentido meio mal, muitas pessoas já me disseram (israelenses mesmo) que é o certo a fazer, que ninguém liga de não estar entendendo o que eu estou falando com o meu filho (mesmo porque, vamos combinar, muitos segredos eu ainda não conto pra ele). Se é alguma coisa que eu acho que devo, eu traduzo depois pro Hebraico. Fica um pouco confuso pra quem ouve de fora, mas eu me acostumei totalmente. 


Na creche dele as tias já aprenderam algumas palavras em Português que eu uso sempre e na creche antiga (ele mudou há 10 dias), muitas tias o chamavam de "que lindo", coisa que aprenderam rapidinho, porque né, meu filho é maravilhoso...


Apesar da pouca idade (1 ano e 1 mês), eu já me orgulho em saber que ele sabe sim que há mais de um código na vidinha dele e já demonstra isso desde muito pequeno: Quando ele tinha 6 meses e entrou na creche nova, me pediram uns DVDs em Português pra colocarem e ajudar na adaptação dele. Eu levei uns BebeMais (q logo eu levei de volta pra casa justamente porque queria que na creche ele só escutasse Hebraico). Me contaram depois que quando colocaram o DVD ele estava brincando, mas que assim que escutou a voz da narradora, olhou em volta, procurou alguma coisa (eu acredito que seja a mãe linda dele), não achou e chorou. Ou seja, ele já, naquela época, associava o som do DVD com a casa dele. 


As poucas palavras que ele fala são em Português, ou sons parecidos com a língua, como "qué", "no no", "dá", "a-ca" (palavra nova pra água, até semana passada era "sá" (associação com "chá" que me vê tomar todos os dias e generalizou todos os líquidos "tomaveis), "ca ca" (pro patinho quá quá), "tau tau" (tchau tchau), "teta" (chupeta) "mamã", "auô" (alô), "vovó" e "Pau-ua" (Paula, o nome da minha irmã). A única palavra em Espanhol é "papá", como ele chama o pai. Fora isso ele entende praticamente tudo o que falamos, principalmente se for direcionado a ele. Por exemplo, se estivermos na sala e pedirmos que ele traga o livro do patinho quá quá ou do gatinho miau, ele engatinha até o quarto e volta com o livro. 


Ele se expressa muito bem, diz que não com a cabeça, aponta e diz "qué" pra geladeira quando quer algo que sabe que está lá, se faz entender atravez de gestos. Outro dia, almoçando, eu comecei a cantar com ele, não lembro que música tentei cantar, mas ele balançou a cabeça, disse "no no" e apontava o dedo indicador pra palma da mãozinha gorducha, virada pra cima. O q ele queria "Cai cai balão, cai cai balão, aqui na minha mão". E assim "conversamos" e cantamos por muitos minutos, meu marido encantado com a facilidade que o Uri tem em se fazer entender. 


Ele também já nos surpreendeu com demonstrações de entender Hebraico, como quando falamos a palavra rosh (cabeça) e ele pôs as mãozinhas na cabeça, ou quando alguém fala "bye bye" (coisa que nunca usamos em casa) e ele responde "tau tau". 


Acredito que estamos no caminho certo. As coisas poderão ficar mais complicadas quando ele falar efetivamente, mas acho que, pela idade dele, ele está se comunicando super bem, falando muito mais do que crianças que só falam um idioma em casa (dizem por aí que crianças bilingues demoram mais para começar a falar, eu não sei não..). 


Acho que se estivermos 100% seguros do que queremos, se não bobearmos falando outra língua, o que pode confundir muito a cabecinha dele, não teremos maiores problemas. Já vi mães aqui misturando Hebraico, Português e até outra língua na hora de falar com os filhos e depois se perguntando porque a criança não fala nenhuma língua direito. Mas como ela vai saber qual é o certo a usar em cada situação? Os códigos têm que ser claros, pra criança aprender não só as palavras, mas a estrutura, a "gramática" de cada língua como um todo. 


Tenho o "apoio" de muitos livros, DVDs e CDs em Português enviados pela família e pelos amigos desde antes dele nascer e acredito que o interesse dele pela língua só vai aumentar com o passar do tempo. 


Quando eu vir meu filho conversando com a vovó e as tias no telefone, assistindo Sítio do Pica Pau Amarelo ou mais pra frente, lendo um livro do Marcos Rey da Coleção Vagalume, aí eu vou saber que fiz o trabalho certo, pelo menos na parte linguistica! 







Quer saber como outra mães lidam com o bilingismo? Confira aqui!