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quarta-feira, 19 de março de 2014

O parto da Lia - parte 2

....Umas 10 da noite vieram fazer outro cardiotoco. Com poucas contrações, a enfermeira de plantão puxou uma cadeira, sentou do meu lado e conversou comigo. Me aconselhou a tomar um banho e a dormir, porque eu precisaria de forças nos próximos dias. Ela perguntou também sobre trabalho, filho, onde eu morava, parecia q queria me distrair, me fazer sentir bem. Meia noite e pouco trouxeram outra mulher pro quarto – uma ortodoxa q estava no 11º parto. Tão experiente q, sem dar um pio, deitou e dormiu a noite toda (coisa q não deve fazer muito em casa). No outro dia, ainda sem dar um pio, anunciou q tinha tido uma contração forte e q deveria ir pra sala de parto.

Às 2 da manhã eu estava com muitas contrações, a cada 4 minutos em média. Fui até a enfermeira, ela me fez outro cardiotoco e resolveu me mandar para um exame de toque: “Dois cm de dilatação, vai tomar banho e pular na bola fisio, quem sabe até de manhã esse parto começa de verdade”. Perguntei se deveria chamar o marido, mas a médica disse q não, q eu precisava mesmo era descansar. Por acaso, foi eu chegar ao quarto de volta e o marido ligar e anunciar q estava voltando pro hospital, ele e a Elza.

Tentei dormir um pouco, não deu muito jeito e quando as contrações deveriam engrenar, elas na verdade pararam, como se nunca tivessem existido. Às 9 e pouco da manhã teve visita médica e resolveram me dar outra dose do indutor. Meu tampão caiu na hora do almoço e mais uma vez, algumas horas depois, comecei a ter contrações, mais fortes dessa vez. Eu me empolguei, sempre achei q minha filha nasceria no dia 20 de fevereiro, achei q estava certa. Às 3 e pouco da tarde tive outra consulta e exame de toque e eu tinha quase 3 cm de dilatação. A médica prometeu outro exame em 2 ou 3 horas e se houvesse progresso, eu iria pra sala de parto até o final do dia.

A Avigail veio me visitar e tanto ela quanto a Elza me aconselharam a ir fazer uma caminhada pelo estacionamento do hospital, pra ver se o negócio fluía. Estava uma tarde linda, um sol quentinho e lá fomos nós, andar por uns 40 minutos. A cada contração eu dançava “o tchan” (sim, no estacionamento do hospital super religioso), na esperança de amenizar a dor e de acelerar o processo. No final da caminhada voltamos pro quarto e as contrações sumiram.

A essa altura eu estava começando a cansar e a me encher. Até então, a cada contração eu pensava “uma a menos para o encontro com a minha filha” e as encarava numa boa, apesar da dor. Dois dias de contrações e dores depois, eu me vi tendo raiva delas, já q aparentemente elas não “serviam pra nada”, o parto não acontecia. Eu estava incomodada, cansada e acima de tudo, com muitas saudades do Uri. Conhecendo meu filho, eu sabia q ele estaria se mostrando forte e todo mundo estaria achando q ele estava adorando estar com pessoas diferentes a cada dia. Eu acredito q sim, ele estava se divertindo, mas q por outro lado ele não estava entendendo nada e sentia falta da rotina e da mãe dele em casa. Quando a gente explicava q a mamãe “tinha ido pro hospital pra buscar a nenê”, eu tinha certeza de q ele não entendia o porquê da minha demora em voltar pra casa com a irmã dele. Minha amiga Iara estava vindo de Tel Aviv para dormir com ele aquela noite (e passar o final de semana também), mas pedi pro Ariel ir pra casa. O Uri aparentemente precisava mais dele do q eu, já q o parto parecia distante... Com o Ariel em casa eu me sentia mais tranquila em saber q o Uri estaria mais próximo do q ele conhece como rotina e com o backup da Iara, o Ariel poderia voltar pro hospital caso fosse necessário.

Fiquei sozinha, sem o Ariel, a Elza ou as contrações. Cheguei a fazer outro exame de toque naquela noite, mas não havia progresso algum. Assisti Master Chef do meu telefone, rezei e tentei dormir.

O Ariel passou a noite toda com o Uri, o levou pro gan e veio pro hospital. Me encontrou de mau humor e semi deprimida. Quando a médica passou visita às 9 da manhã, eu perguntei quais eram os planos deles pra mim, se eu ficaria tomando indutor sem muito resultado. Ela explicou q não, q agora q eu tinha dilatação e 80% do colo do útero apagado, se eu desejasse, poderia tomar ocitocina e acelerar esse parto. E disse uma frase q eu nunca vou esquecer: “Anotem ai, dia 21 é a data de nascimento da filha de vocês!”

De novo, ocitocina não estava nos meus planos iniciais, mas àquela altura, eu não tinha mais esperança de parir segundo os meus planos iniciais. Eu queria parir, ponto. Queria conhecer a minha filha, queria voltar pra casa pro meu filho, queria começar a nossa vida nova. Não sei se todas as mulheres são assim, mas naqueles dias, o bem estar do filho “q estava do lado de fora”, era tão importante quanto da q “estava aqui dentro”. Eu não conseguia mais estar fora de casa porque eu sabia q ele precisava de mim e sim, a minha decisão de acelerar mais ainda o parto foi influenciada pela existência de outro filho, q precisava de mim também.

A última foto da barriga - com as flores q chegaram da família na Espanha...

Foi decidido q eu seria levada a uma sala de parto no decorrer do dia, não sabiam quando, pois havia outros casos mais urgentes do q o meu. Pedi pro Ariel ir buscar o Uri no gan (era sexta feira e ele só tinha gan até meio dia) e trazer pro hospital por algumas horas. A Iara chegou de Tel Aviv e veio direto pro hospital, pra voltar pra casa com o Uri e o nosso carro, q estava lá desde a minha internação. Meu coração se alegrou e se acalmou ao ver o meu filho, porque eu sabia da importância disso pra ele. Ele almoçou comigo, brincou um pouco no quarto e no hospital e depois de uma hora e pouco, foi embora. Mais uma vez, ele não entendeu o porquê da Iara dirigir o nosso carro e de eu não voltar com ele pra casa.

o quase irmão mais velho...

Quando voltamos ao quarto, nos avisaram q a sala de parto estava pronta, nos esperando. Arrumamos o q precisávamos rapidamente e fomos pra lá. Avisei a Avigail sobre os planos da médica e ela disse q estava a caminho do hospital, mas para fazer outro parto, de uma mulher q estava a caminho, vindo do norte de Israel, e ela esperava conseguir estar no meu parto também. Esperei terminarem de preparar a sala e quando fui entrar, uma parteira chegou esbaforida trazendo outra mulher com 9 de dilatação q precisava usar aquela sala naquele segundo. Então me mandaram esperar do lado de fora com o Ariel e essa foi a parte mais chata de todo o processo. Esperamos por mais de duas horas e no final nos mandaram de volta pro quarto, pois as salas de partos estavam todas lotadas, com casos mais urgentes do q o meu, e eles não podia se dar “ao luxo” de me manter numa sala por tantas horas, o q era o esperado de um parto com ocitocina. Argumentei dizendo q eu estava sem líquido amniótico havia 3 dias e isso poderia ser perigoso pra nenê, então resolveram fazer um novo US e viram q eu tinha um pouco de líquido, o suficiente para ela estar bem (como também comprovado pelos muitos cardiotocos q eu fazia por dia), mas o médico de plantão perguntou se eu queria fazer uma separação de membranas, pra ver se alguma coisa acontecia nas horas seguintes. Naquela hora eu tava aceitando até machadada na cabeça, se aquilo significasse q meu parto começaria, então aceitei e quase morri de dor e desconforto.

Voltamos pro quarto decepcionados e dormimos. Acordei às 5 e pouco da tarde e resolvi pedir q me fizessem outro cardiotoco. Alguns minutos mais tarde, a Avigail entra no nosso quarto e eu acho q nunca vou esquecer dessa cena e sempre lembrarei daquela iemenita de um metro e meio como uma pequena super herói, entrando com uma capa e um escudo no quarto e nos “salvando” do “parto sem fim”. Ela disse q tinha conseguido um quarto pra mim e q deveríamos ir pra lá naquele segundo. O Ariel ainda brincou q era hora do jantar e ele pretendia comer (sempre, sempre faminto o meu marido) e ela disse pra comermos em 5 minutos e irmos.

Eu não tinha fome alguma, mas fui ao refeitório pegar comida pro Ariel. #Pausa – O Leniado é um hospital ultra-ortodoxo, como eu disse. O refeitório é só para as parturientes, nem acompanhante mulher pode entrar e muito menos homem. Além disso, era sexta feira, 6 e pouquinho da tarde e qualquer um q saiba um pouquinho de judaísmo imagina o q acontecia naquele momento – Kidush de Shabbat. Entro esbaforida no refeitório, querendo jogar qualquer coisa no prato e ir ter a minha filha e dou de cara com um homem hiper religioso (nível xaxim na cabeça) fazendo kidush, em idish. Esperei, ri sozinha de Murphy regendo a minha vida, engrossei o coro do “amén”, tomei um vinhosinho abençoado e sai de lá.

isso é o chapéu xaxim
Ariel engoliu a comida e fomos pra sala de parto. Era exatamente 7 horas da noite. A Avigail entrou, fez (outro) exame de toque, confirmou os 3 cm, colocou acesso na minha veia e começou com a ocitocina.

a foto mais parecida da "trave" q encontrei no Google, mas a cama era diferente
Saiu da sala e voltou com uma almofada bem grande, q colocou atrás de mim e uma “trave de futebol” em volta da cama. Levantou o encosto e disse “cada vez q vier uma contração, se segura na parte de cima dessa trave e rebola”. Nem um minuto depois veio uma, eu fiz o q ela mandou e senti uma dor gigantesca, como nunca havia sentido antes, nem no parto do Uri. A dor foi fortíssima, mas de alguma forma, era uma dor boa. Ela deu risada, me examinou e disse “Querida, teu parto começou!”. Tenho plena consciência de q ter tido um parto sentada e não deitada, ajudou muito a acelerar o processo todo, assim como a trave e os movimentos q ela me ensinou a fazer. Hoje, ao pensar num parto deitado, não entendo o porquê de se ir contra a força da gravidade e a natureza em si. Pra nascer, o bebê precisa ser empurrado pra baixo, e deitada, a mulher tem q fazer muito mais força.

As contrações aumentaram muito rapidamente – vinham mais fortes e em intervalos mais curtos. Em poucos minutos ela foi chamar o anestesista e eu, q até cheguei a planejar um parto natural e sem epidural, temi pelas contrações induzidas (pela minha experiência anterior) e não quis ser forte naquele momento.

O anestesista chegou em 10 minutos e tiraram o Ariel da sala para aplicarem a epidural. Como da outra vez, apesar do medo, a dor da picada foi totalmente suportável, mesmo com duas ou três contrações no meio do processo. O anestesista mal saiu da sala, o Ariel estava voltando pra lá e foi recebido pela Avigail, q acaba de me examinar de novo, com a frase “7 centímetros de dilatação”. Ariel correu pra ir avisar a Elza da proximidade do parto ativo (e teve q ligar escondido, pois era Shabbat e não se pode usar o telefone no hospital em Shabbat).

Ela saiu e voltou com a “mesa de nascimento” – um pequeno carrinho com tudo o q ela precisaria para o parto ativo e pro nascimento do bebê. Eu ainda ri e disse q ela estava exagerando, q ainda tinha tempo pra aquilo e ela gargalhou, me examinando de novo (nem cinco minutos depois do último toque): “Dilatação completa. Vamos lá, tua filha vai nascer”.

Além disso, e sem a gente pedir, ela apagou quase todas as luzes da sala, deixando só uma, fraquinha... Me apaixonei de novo por ela por esse gesto de carinho e compaixão pela bebê, q não merecia vir ao mundo sob holofotes fortes (ela tem a vida toda pra brilhar depois). Segundo ela, até Rambam (Maimônides) escreveu sobre a importância de um ambiente acolhedor no nascimento.

O Ariel ficou do meu lado esquerdo, ela do direito e eu me deitei de lado. A epidural não tinha nem tido efeito completamente e eu, apesar de não sentir dor alguma, senti todas as contrações e todo o parto, exatamente o q eu queria. Logo a Avigail e o Ariel viram os cabelinhos da nenê e anunciaram q ela não era ruiva, o q decepcionou o pai, q sempre sonhou com uma filha laranjinha.

Eu entrei em transe, nunca vou esquecer desses segundos, ou minutos, já nem sei mais. Não enxergava nem escutava nada, apenas concentrava todas as minhas forças e ajudava a minha filha a vir ao mundo. Foi, com certeza, uma das sensações mais alucinantes e marcantes dos meus 37 anos. Enquanto isso, a Avigail fazia massagem no períneo com o óleo de amêndoas q eu havia levado. Como ela prometeu, eu não teria cortes.
Em duas ou três contrações mais, ela coroou. Em poucas mais, os ombros passaram e eu fui intimada a segurá-la e trazê-la, eu mesma, pro meu peito.

A Lia chegou, num parto totalmente diferente do q eu tinha planejado, mas q foi exatamente o q deveria ter sido: A reparação da minha experiência de trazer meus filhos ao mundo. Se o primeiro foi difícil, esse foi fácil. Se o primeiro doeu muito, esse eu pouco senti. Se o primeiro me deu muito medo, nesse eu tinha segurança em mim, no meu corpo e na pessoa q trouxe pra me ajudar. Se o primeiro foi ruim, esse foi maravilhoso.

Às 08h22min da noite a minha filha chegou berrando, segurando o cordão umbilical com a mãozinha. Esperamos ele parar de pulsar e o pai dela realizou o seu sonho de cortá-lo. Ela então foi rapidamente pesada (2,650 gr) e trazida pra mim de novo, pra mamar. Logo chegou a doula q, apesar de ter sido avisada a tempo, não pôde competir com esse parto relâmpago.

Ficamos os três babando nela enquanto minha placenta foi expelida, intacta. Uma médica foi chamada pra dar um único ponto, q foi preciso pois ao passar, a Lia arrebentou a cicatriz de um dos pontos do parto do Uri.

Depois de mais de 1 hora, me examinaram de novo e a levaram pro berçário e me levaram de volta pro quarto. Eu estava eufórica, queria levantar pra tomar banho, mandei o Ariel e a Elza embora pra casa e fui pegar a minha filha, q estava numa cama aquecida dormindo tão profundamente q tive pena de tirá-la de lá. Resolvi ir descansar, já às 11 e pouco da noite.

E assim nos tornamos quatro, como estava escrito. Num parto tão rápido, tão íntimo, tão bonito, q me deu saudades já no dia seguinte, tanto q eu falo pro Ariel: “Se tudo começasse e terminasse num parto assim, eu teria mais dois.”

pensa numa pessoa em êxtase...






Ainda fiquei mais dois dias no hospital e não tenho palavras pra definir o tratamento q recebi durante todo o tempo q fiquei lá. Todos os médicos, as enfermeiras, as parteiras sempre foram muito atenciosas e carinhosas. Além disso, tudo é muito organizado e cada um sabe o seu papel e tudo funciona direito.

Resolvi deixar a Lia no berçário à noite pra eu poder descansar, mas pedi pra não darem leite artificial pra ela, e q me chamassem caso ela chorasse. Nas duas primeiras noites ela não chorou, na última me chamaram e eu fui amamentá-la na sala de amamentação q ficava no corredor do meu quarto e acabei me arrependendo de não ter ido lá mais vezes. Uma sala linda, bem decorada, com potronas confortáveis e mães passando pelo mesmo q eu passava. No dia seguinte, antes de ir embora, fui até lá e tive uma consulta de quase uma hora com uma especialista em amamentação. Além do q paguei pra parteira (q foi opção minha), todo o resto não me custou um centavo, tanto q levei minha bolsa pro hospital porque estava dirigindo quando cheguei, mas o Ariel a levou embora assim q voltou pra casa pela primeira vez, pois não precisei de dinheiro algum em nenhum momento até a nossa saída.
tirei foto porque quero uma igual!

A sala de amamentação

A decisão de contratar uma parteira particular é hoje abençoada por mim e pelo Ariel. Durante o parto mesmo ele confessou entender a importância disso pra mim e pro parto q tivemos dessa vez. Chegamos a ficar tristes em saber q pouco provavelmente encontraremos a Avigail em outros momentos da nossa vida, já q a possibilidade de outro parto está descartada. Essa mulher foi abençoada por um dom incrível, o de trazer, de uma forma respeituosa e cheia de amor, novos seres humanos ao mundo e nós sempre falaremos dela com carinho e admiração.

Fora ela, a presença da Elza, a doula, nos acalmou e trouxe companhia. O seu marido e a sua filha e as amigas q vieram de longe pra ficar com o Uri nos provaram q não precisa ter sangue pra ser família, pra se importar, pra cuidar.


A Lia vai completar um mês em dois dias e não há um dia em q eu não me lembre da maneira como ela chegou ao mundo e não agradeça por tudo o q aconteceu com a gente e pelas pessoas q passaram pelo nosso caminho pra q isso acontecesse. 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Já chegou o verão?

Enquanto no resto do hemisfério norte as pessoas ainda não guardaram seus casacões e as suas botas e muitos ainda limpam a neve do carro de manhã, aqui em Israel as temperaturas chegaram a 36 graus hoje!

Apesar de já estarmos com temperaturas mais amenas há algumas semanas, o que acontece hoje é um "fenômeno", que chamamos de Shrav.

Shrav é uma onda de calor que aparece por aqui (e em outros países ao sul do Mediterâneo) na época da "meia estação" - Entre o inverno e a primavera e entre o verão e o outono. De repente, o dia amanhece muito mais quente do que o anterior. 

Apesar de eu adorar verão e já estar acostumada aos dias muito, muito quentes de julho e agosto, esses dias de shrav me fazem sofrer (não sou a única). Não é um dia de verão bonitão, céu azul, vontade de sair sorrindo de shorts e Hawaianas e ir até a praia pegar um bronze. Não, o dia fica meio bege, o ar parado, mal dá pra respirar. E o calor é sufocante. 

Hoje aconteceu a Maratona de Tel Aviv, na verdade a maratona em si foi cancelada (devido à previsão do tempo), mas outras corridas aconteceram e nessa um rapaz de 29 anos morreu e várias outras pessoas passaram mal por desidratação. Triste... Mais sobre isso aqui. 

Enfim, hoje é dia de ficar em casa, com o ar condicionado ligado. Amanhã a vida volta ao normal, podemos fazer passeios e ir até a praia. Porque sim, essa onda de calor vai embora do mesmo jeito que veio - de repente. Geralmente, no final do dia a onda "quebra", como dizem por aqui.

Mistérios do deserto!

E se você estiver por aqui num dia de shrav, beba muita, muita água!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

De volta! E as 3 festas de aniversário!

Estivemos, Uri e eu, no Brasil entre janeiro e fevereiro. Com a correria pré-viagem, as compras de presentes e o trabalho que precisava ser terminado antes do embarque, acabei deixando o blog às traças desde dezembro.

Mas voltamos e tenho muitas coisas pra contar. Vou começar aleatoriamente, pelas festas de aniversário que o Uri ganhou pelos seus dois aninhos, pra registrar bem as diferenças entre elas.

A primeira, no Brasil:

Como não sabemos quando poderíamos comemorar a data junto da família e dos amigos novamente, resolvemos fazer uma pequena festa algumas semanas antes da data dele. Eu adoro organizar festas, tinha todo o suporte da família, mas decidi escolher um tema simples, pra não perder muito das minhas férias com os preparativos. Escolhemos fazer uma festinha à fantasia pros pequenos, e na decoração só usamos muitas cores e bolas.

Foi muito fácil conseguir a decoração toda, que maravilha que é fazer festa no Brasil!! A gente encontra tudo e o preço é razoável (com excessão dos descartáveis, que são muito mais variados e baratos em Israel).

A festa foi no salão de festas de uma amiga, um lugar muito bonito, com playground pras crianças e um salão amplo e coberto. O melhor? Encomendar toda a comida, TODA, de acordo com o número de pessoas. Comprei salgadinhos (e ainda sonho com eles), sanduíche de metro, o boloe todos os docinhos. Fiz a encomenda com dois dias de antecedência e uma hora antes da festa fui pegar tudo, quentinho, tinham acabado de montar as caixas. O preço? Mesmo não sendo "de graça", 330 reais, pra 35 pessoas, eu acho q foi muito bem pago! Só comprei mesmo algumas balas e refrigerante "por fora". Só alegria!

Eu estava com muita dor nesse dia (crise de nervo ciático inflamado), mal conseguia andar, mas hoje nem lembro dessa dor... Muita gente não pôde ir porque caiu bem num final de semana de feriado em SP, mas outros vieram de longe e foi uma delícia, um sonho, poder curtir essa tarde com tanta gente querida. Aliás, uma coisa que me estranhou no Brasil - Várias pessoas não confirmaram presença, ou confirmaram e não vieram... Achei isso chato, aqui em Israel isso quase nunca acontece, mas enfim, pelo que me disseram, é assim. Só é ruim porque fica difícil calcular a comida e a bebida direitinho, sobrou muita coisa e as pessoas que foram embora no final acabaram levando pékale pra casa.

Are Baba!!!

assoprando as velhinhas com a vovó







sonhando com eles...



A segunda, aqui em casa:

Chegamos em Israel e 10 dias depois festejamos aqui em casa, com os amigos mais chegados (brasileiros e israelenses). Como eu sabia da correria que seria, deixei toda a decoração pronta antes de viajar (comecei em novembro!). Cheguei aqui, terminei umas poucas coisas que faltavam e só deixamos a comida pra véspera. Sonhei com encomendar tudo de novo, mas na falta disso, fiz todos os docinhos uma semana antes, enrolei e congelei! Já tinha feito isso no ano passado e é uma das melhores dicas pra evitar a correria antes da festa! Fiz tudo com calma e no dia só descongelei, coloquei nas forminhas e pronto!

Aliás, aproveitando a viagem pro Brasil, trouxe bala de côco e papel pra ela, confeitos coloridos, forminhas e outras coisas nas cores das festas, coisas que não acho aqui, além de leite condensando de verdade, granulado (granulado em Israel não é de chocolate, é de açúcar) e até aquelas bolinhas de flocos de arroz. Tudo isso ajudou e muito a mãe detalhista!

Os comes e bebes todos foram feitos pelo meu marido e eu. Como nos organizamos muito (Excel, eu te amo!), pudemos respirar no dia anterior, não nos matamos até tarde da noite e nem deixamos de fazer o que planejamos.

Adorei a festa, principalmente o esquema de cores (sim, sou dessas). Mais do que isso, é gostoso ver que, com o passar dos anos, fomos formando a nossa família por aqui e muitos viajam mais de uma hora pra poder comemorar junto com a gente.

parece empadinha, não é, mas é tão bom quanto!





toda a decoração feita pela mamãe!!

o bolo, com recheio de brigadeiro e brigadeiro de maracujá, foi feito pelo papai e decorado
todinho por mim!

A casa, do jeito que a gente adora - cheia de gente querida!







A terceira, no gan:

Três dias depois, comemoramos no gan (creche) também. Como os amiguinhos são pequenos e não convidamos nenhum pra festa aqui em casa (porque teríamos que convidar também os pais e os irmãos, e ai não caberia), achamos que ele merecia comemorar lá também, já que todos os amiguinhso o fazem. E foi muito legal! Mas querem ver a diferença nos hábitos? Esqueçam as coxinhas e os risoles!

A dona do gan nos deu uma lista do que levar:

20 ovos cozidos
20 sanduichinhos
salada
um bolo simples

um pacote de marshmallows
dois pacotes de Bamba
dois pacotes de Begalê (um salgadinho tipo aquele de palitinhos do Brasil)

Esses três últimos itens vieram riscados assim mesmo, ela sabia que eu não aprovo esse tipo de "comida" pra criança pequena e não levaria.

Um dia antes, checando os últimos detalhes, ela me pediu pra não levar os ovos cozidos, porque a festa seria na hora do café da manhã, entre 8:30 e 10 e se eles comessem muito, não almoçariam (eles almoçam às 11:30, almoço de peão!)

Confesso que tínhamos pensado em fazer outras coisas, espetinhos de frutas, sanduíchinho em forma de bichinhos, mas devido à correria com a volta da viagem e a outra festa, e também porque sabíamos que eles não comeriam muito, resolvemos fazer somente o que ela pediu, à nossa maneira...

Não se usa fazer decoração com tema algum, mas eu usei o que sobrou da festa de 1 ano dele (que foi com o tema Safari) e dei uma abrasileirada nas coisas. Fiz convitinhos pras crianças e um cartaz bonito pra porta do gan (é assim q anunciam as festinhas, pros pais comprarem presente!). De lembrancinha mandei uma bolhinha de sabão personalizada e um rashan, um brinquedo que faz barulho, típico de Purim (que foi essa semana) .

Pra comer levamos salada (e os pequenos comeram, às 9 da manhã!), sanduichinhos de queijo e cupcakes de laranja, que eles acabaram comendo só à tarde e segundo a dona do gan, devoraram.





Depois do café da manhã (achei essa idéia bem legal, comida mais gostosa e saudável), ela começou com a festa em si. Foi muito bonitinho e emocionante pra mãe chorona ver a homenagem pro Uri. Mais lindo é vê-lo, tão pequeno, entendendo que aquele era o seu dia e interagindo, dançando, participando. Filmei tudo e juntei tudo no video abaixo, com algumas explicaçõeszinhas. Não repara na qualidade da edição, preciso aprender mais sobre isso e parar de filmar com o iphone (muito mais prático, concorda), pra fazer vídeos de melhor qualidade.


O Uri ganhou tantos, mas tantos presentes nessas três festas que tivemos que guardar a metade deles. temos uma prateleira cheinha de surpresas que ele vai ganhar por muitos meses!



Agora que a viagem e as festas acabaram, podemos respirar de novo e colocar, finalmente a vida em dia! Nosso ano começou com muitos eventos e muita alegria! Feliz 2013 pra todos!

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Blogagem Coletiva - Dia das Crianças - Do que brincam os pequenos israelenses?


Em Israel não se comemora o Dia das Crianças como no Brasil. Acho que já comentei por aqui que temos um "Dia da Família" lá pra fevereiro, que engloba os dias das mães, dos pais e das crianças e mesmo assim é bem menos comercialmente explorado, pouca gente dá presente, não tem propaganda na TV, até eu ter filho eu mal me lembrava desse dia.

Além disso, propaganda infantil aqui deve ser proibida na TV, eu não me lembro de ter visto um comercial de brinquedo, mochila, CD, DVD, o que for, na TV aberta. Na fechada nem comercial tem. Acho ótimo, acho certo e um dia ainda comentarei mais sobre o assunto, que pra mim é muito importante. Apesar disso eu acho a população israelense bem consumista, crianças e adultos. Um exemplo disso são as sextas feiras e as vésperas de feriado por ai. Todas as lojas, todos os shoppings, todos os supermercados estão lotados, e o povo compra, compra, compra. Comida, coisa pra casa, brinquedos e mais brinquedos.

Já fui em casas de amigos que pareciam mais lojas de brinquedos, um moooonte de brinquedos iguais (tipo 4 carrinhos idênticos, talvez um detalhe de cor mudavam), bicicleta, triciclo, carrinho a bateria, patiente. Um monte de coisas, geralmente amontoadas, quebradas, faltando peça.

Juro, me dá aflição.

Eu acho que meu filho tem muito brinquedo, e ele não tem 1/4 dos brinquedos que eu vejo em muita casa por ai. Eu me lembro de ter saído para comprar brinquedos pra ele poucas vezes, ganhamos muitas coisas que eram de filhos de amigos e procuramos não ficar juntando tralha. Se não tem onde guardar nas prateleiras dele, vejo se ele brinca mesmo com aquilo e se a resposta for não, vai pra doação.

E quando eu lembro do consumismo desenfrado que eu via no Brasil, das milhares de propagandas de brinquedos, principalmente nessa época do ano, da manipulação dos pequenos, me dá mais aflição ainda. 

Dai que há uns dias a Paloma me convidou pra falar um pouco sobre brincadeiras (e não brinquedos) em Israel, tomando parte de uma blogagem coletiva por ocasião do Dia das Crianças, promovida pelo movimento Infância Livre de Consumismo - "Compartilhe brincadeiras" e desde então eu tenho procurado observar as crianças à minha volta. 

Essa semana mesmo fomos à praia e entre catar conchinhas, entrar e sair do mar e "escrever" na areia com um graveto, percebi que brinquedo nenhum faz meu filho tão feliz quanto esses momentos em familia, e isso não é demagogia não! No alto dos seus quase 20 meses, ele está descobrindo o mundo e tudo, absolutamente tudo, é um laboratório pra ele. Muitas vezes ele pode ficar horas passando feijão de um recipiente pra outro e ignorar completamente o Fisher Price caro que ganhou.

Mas fato é que, com muitos brinquedos ou não, criança israelense brinca fora de casa, infinitas vezes mais do que os pequenos coitados brasileiros presos dentro de casa e nos shoppings. A grande maioria aqui é criada no parquinho da esquina. Nós mesmo temos uns 5 num raio de 100 metros do nosso prédio e poucos são os dias que não levamos o nosso filho em um. E eles estão sempre lotados. Pais, mães, avós, avôs, bebês, crianças maiores sozinhas, bicicletas, patinetes, bola, etc etc.

Quer ver como ele curte??? 








Eu gosto muito de ver isso, acho que é infância saudável, fora de casa, ao ar livre, no sol, gastando energia, correndo, se sujando. Eles também assistem bastante televisão, mais do que eu acho certo e legal, mas pelo menos têm os parques pra "balancear".

Daí que eu sai perguntando pra uns amigos israelenses sobre as brincadeiras de infância por aqui (já que o Uri ainda é pequeno e pouco brinca com outras crianças fora da creche). Eles me mandaram uma lista, mas eu acredito que a maioria seja de brincadeiras da infância deles, e pouco se brinca com elas hoje em dia. De qualquer forma, algumas são bem parecidas, ou são versões das nossas brincadeiras clássicas, lá no Brasil...

5 אבנים - chamesh avanim - 5 pedras

O famoso jogos dos 5 saquinhos, só que aqui são 5 pedrinhas. Pelo que eu andei vendo por ai, no passado, haviauma diferença nas regras do jogo em Tel Aviv e em Jerusalém (esse era mais complicado!).


o jogo, como é vendido

                    



גומי - Gumi - Brincadeira do elástico

Aparentemente as regras são as mesmas do clássico dos anos 80: 3 participantes, dois seguram o elástico na pernas enquanto o terceiro "pula", de acordo a uma coreografia e algumas fases - a de "não pode falar", a que um fala "stop" e o que está pulando tem que ficar como uma estátua, a de pular com um pé só, a de pular com os olhos fechados...




דוקים - Dukim - Pega-varetas


41 varetas coloridas - O obejtivo é pegar o maior número possível de varetas, sem mexer as que estão em cima.



קלאס - Class- Amarelinha

As mesmas regras do nosso jogo no Brasil - jogar a pedrinha, pular um pé só em cada quadrado, recolher a pedrinha sem cair e chegar no "céu"!



מחניים - Mechanim - Queimada

As regras, pelo que eu entendi nas minhas pesquisas, são as mesmas das que jogávamos nas ruas e nas escolas lá pelos anos 80. Dois times, um participante de cada time são escolhidos para lançar as bolas, tentando "queimar" os outros participantes que estão mais perto. Se algum desses particpantes do "meio" consegue pegar a bola sem deixá-la cair, ele passa a ser o atirador. O objetivo é que um dos times consiga queimar todos os jogadores do time adversário.




כן לא שחור לבן - Ken, Lo, Shachor, Lavan - Sim, não, preto, branco

Esse é um jogo de palavras, onde o "desafiado" tem que responder perguntas sem usar as palavras sim, não, branco e preto. Obviamente, quem faz as perguntas, tenta forçar o desafiado a respondê-las usando essas palavras.

איקס עיגול -  iks igul -Jogo da velha

O legal é que em muitos parquinhos por aqui, as crianças têm um brinquedo de jogo da velha, como esse:




Essas brincadeiras são as mesmas que as nossas, mas os nomes são ainda mais interessantes!


דג מלוח - - Dag Maluach - Arenque (!!) - - Esconde- esconde

Uma criança, com os olhos tapados, conta até 10 enquanto os outros se escondem. Ao terminar, ele anuncia "1, 2, 3... arenque!" e sai a procura dos outros. O objetivo é que os escondidos cheguem ao local onde o "arenque" estava contando, sem serem pegos por ele. O jogo é igual ao nosso, o nome é que é diferente e inusitado.





 "A vovó está bordado" - Cama de gato - סבתא סורגת -










הרצל אמר - Herzl mandou- "Seu mestre mandou"

esse é o cara
Theodore Herzl foi um dos precursores do sionismo e é, sem dúvida uma das figuras mais importantes da história do país. Tão importante, que quem manda, nessa brincadeira, é ele!









Enfim, achei essa BC muito gostosa de pesquisar e escrever. Apesar de não termos muitas brincadeiras diferentes (além dos nomes delas), foi legal relembrar do que eu mesma brinquei por tantos anos. Deixa só o Uri crescer... 

Gostei também da repercusão da campanha do ILC nas últimas semanas no facebook. Quem sabe não é um começo de uma nova era, com mais brincadeiras, mais tempo em família e menos consumismo?






A maioria das imagens das brincadeiras é daqui.